Quarry (2016) – Os Fantasmas da Guerra do Vietnã
21/12/2016
Eduardo Kacic (60 artigos)
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Quarry (2016) – Os Fantasmas da Guerra do Vietnã

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Crítica: Quarry – Primeira Temporada

Em 2013, dentre tantas séries que ganharam o monopólio da mídia e dos fãs, como Game of Thrones, The Walking Dead e Breaking Bad, foi lançada uma daquelas séries underrated, cuja existência até hoje é desconhecida do grande público. A série era Banshee, produzida pelo canal Cinemax, e confesso que eu mesmo demorei três anos para dar uma chance para a série, que terminou justamente no ano de 2016, tendo quatro temporadas produzidas. A história de um ladrão e ex-presidiário que acaba se tornando o xerife de uma cidadezinha americana me conquistou de imediato, e depois de terminar de assistir a série, fiquei antenado nos nomes dos envolvidos no projeto, e no que fariam a seguir.

A resposta veio com esta simplesmente espetacular Quarry (EUA, 2016), série composta (por enquanto) de somente oito episódios e também produzida pelo canal Cinemax. Idealizada e escrita por Michael D. Fuller e Graham Gordy (da série de suspense Rectify), e produzida pelo surpreendentemente cada vez melhor showrunner Greg Yaitanes, responsável pela série Banshee e que aqui também é o diretor dos oito episódios, Quarry é baseada na série de livros do escritor Max Allan Collins, autor da graphic novel que originou o excepcional Estrada Para Perdição (Road to Perdition), filme dirigido por Sam Mendes (Beleza Americana) e protagonizado por Tom Hanks e Paul Newman em 2002.

Quarry é ambientada na cidade de Memphis, no estado do Tennessee, no ano de 1972, ainda há três anos do fim da Guerra do Vietnã, que viria a terminar em 1975, depois de aproximadamente vinte anos de conflito. É de lá que retorna o desiludido veterano Mac Conway (Logan Marshall-Green, estupendo), que após servir duas turnês, agora só quer desfrutar a companhia de sua esposa, a bela Joni (a sul-africana Jodi Balfour, de Premonição 5), e a piscina que construiu em sua casa, no espaço de tempo entre suas duas turnês. Entretanto, a vida para os veteranos de guerra não está nada fácil no seu país, e Mac não consegue arrumar emprego, principalmente pelo fato de seu nome estar ligado à um suposto massacre de uma vila de pescadores no Vietnã, durante seu tempo de serviço. Começando a ficar desesperado com a possibilidade de perder sua casa, Mac acaba aceitando trabalhar para um misterioso homem conhecido apenas como “O Intermediário” (o excelente Peter Mullan, dos dramas Tiranossauro e Cavalo de Guerra), como um matador de aluguel.

A trama de Quarry não é tão simples assim. O trabalho de Mac como matador de aluguel é somente a ponta do iceberg, já que a alta dramaticidade da série trabalha em todos os aspectos do retorno de Mac após vivenciar os horrores da guerra. O riquíssimo roteiro de Michael Fuller e Graham Gordy esmiúça desde a questão psicológica do protagonista, como sua turbulenta relação com seu pai (Skipp Sudduth, de Ronin e do recente The Neighbor), além de sua ligação com a família de seu falecido melhor amigo, por quem ele se sente responsável. Mas é quando retrata o relacionamento de Mac com sua esposa que a série ganha ainda mais em profundidade e riqueza narrativa. A relação do casal é mostrada com imenso realismo e intensidade, em momentos valorizados pela colossal interpretação de Logan Marshall-Green, que neste mesmo ano, já havia entregado uma performance fantástica no excelente thriller The Invitation, dirigido por Karyn Kusama (Aeon Flux).

Mas não é só Green quem está ótimo na série. Assim como em Banshee, a galeria de excelentes e interessantes personagens secundários garante momentos sensacionais, além de performances cativantes de todo o elenco. Dentre a vasta gama de coadjuvantes de peso, destacam-se bastante o ótimo ator escocês Peter Mullan, e também o ainda desconhecido Damon Herriman (da série Justified). Nos papéis do enigmático contratante e do parceiro de trabalho de Mac, respectivamente, Mullan e Herriman estão impecáveis, e os momentos de interação entre seus personagens e o personagem de Green, garantem sequências e diálogos inesquecíveis à série. Mullan assegura classe e sobriedade ao seu misterioso personagem, enquanto que Merriman interpreta um tipo no mínimo inusitado: Um mortífero assassino de aluguel homossexual.

Entretanto, Quarry não teria o resultado fenomenal que alcançou, não fosse a direção magnífica de Greg Yaitanes, que aqui mostra-se um diretor do primeiro time da TV americana, com potencial cinematográfico, inclusive. O trabalho de direção de Yaitanes em na série é admirável, onde ele insere uma textura e profundidade poucas vezes vistas na televisão. Principalmente em uma série de orçamento limitado e pequeno alcance de público como Quarry. Situando sua trama na climática cidade de Memphis, considerada uma das três cidades mais importantes da música norte-americana, juntamente com Nova Orleans e Nashville, Yaitanes garante peso ainda maior para o já sensacional texto da história. Repetindo seu trabalho em Banshee, Yaitanes também mostra mão pesada na ação da série, que é violentamente explícita, e nas sequências de sexo, um tanto atrevidas para os padrões da televisão. A série, como não poderia deixar de ser, já que é situada no berço musical de Memphis, conta com uma trilha-sonora de arrepiar, que conta com o melhor do Blues, Rock n’ Roll, Soul e do Spirituals, precursor do Gospel. Nomes como Al Green, Van Morrison, Wilson Pickett, Otis Redding e Blue Oyster Cult, entre outros, dão as caras na fenomenal soundtrack do seriado.

Resumir Quarry como apenas uma série sobre um ex-veterano de guerra que se torna matador de aluguel chega a ser injusto. A série vai muito mais fundo, e ataca o âmago dos estragos que a guerra causa no indivíduo, que transforma-se para sempre. Mac pode ter retornado para casa, mas trouxe consigo todos os fantasmas de um conflito que viria a definir para sempre quem ele viria a ser, e de como sua adaptação nunca seria 100% possível. A maneira com que a série trabalha esta condição, especialmente nos diálogos entre Mac e Joni, e Mac e seu novo “chefe”, é louvável, e garante uma importância imensurável ao texto e à série como um todo. Yaitanes, Fuller e Gordy encorpam ainda mais o roteiro, misturando os elementos narrativos citados acima com o difícil momento político-social enfrentado pelos Estados Unidos no período. Um verdadeiro caldeirão, onde os conflitos raciais ainda eram constantes, e que também são retratados pela série em algumas passagens.

Não existem termos suficientes para classificar a maravilha pungente que é esta Quarry, uma das melhores e mais penetrantes séries que tive a sorte de ver em toda minha vida, e simplesmente o melhor material visual que vi em 2016, seja no cinema ou na TV. Até agora, não saiu nenhuma notícia sobre uma possível segunda temporada do seriado. Fico terrivelmente dividido sobre esta questão, já que Quarry é absolutamente perfeita em seus diretos e opulentos oito episódios. No entanto, quando paro para pensar e imagino o que poderia render uma segunda temporada da série, realmente oito episódios parecem muito pouco. Quarry é simplesmente imperdível. Não deixe de ver por nada!

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comentários

Nota
5 de 5
No Geral

Não existem termos suficientes para classificar a maravilha pungente que é esta Quarry, uma das melhores e mais penetrantes séries que tive a sorte de ver em toda minha vida, e simplesmente o melhor material visual que vi em 2016, seja no cinema ou na TV.

5

Excelente
5 de 5
Eduardo Kacic

Eduardo Kacic

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colunista do Mundo Blá, e agora é colaborador Humanoides desde criancinha. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao M1TO.

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