A Nascente (1943) – O fantástico e maravilhoso mundo invisível de Ayd Rand
17/02/2016
William Multini (1 artigo)
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A Nascente (1943) – O fantástico e maravilhoso mundo invisível de Ayd Rand

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Resenha | A Nascente (1943)

Alguns contadores de história exercem esse ofício por paixão em histórias e pelo processo de contá-las; outros por viverem em mundos imaginários que lhes são tão reais quanto o que encontram fora de suas mentes; e outros subordinam o enredo e os personagens a uma mensagem específica que desejam transmitir. Embora essa distinção seja injusta, uma vez que os contadores de histórias geralmente são esses três em um ao mesmo tempo, às vezes algum se destaca pela predominância de um tipo específico. E o terceiro caso parece ser o de Ayn Rand, autora do livro A Nascente.

A história do livro, publicado em 1943, se passa nos Estados Unidos dos anos 1920 e 1930 e é centrada em Roward Roark, jovem arquiteto recém-expulso da faculdade de arquitetura. Alguns de seus professores atestam a genialidade de Roark, mas a recusa deste em realizar os trabalhos como são mandados gera inimizade com a maior parte do corpo docente, levando-o à expulsão. Resignado, Roark parte para Nova York para trabalhar no escritório de arquitetura de Henry Cameron, outrora considerado um gênio revolucionário nessa arte, hoje um homem que só é lembrado como um equívoco da história da arquitetura.

Roark e Cameron são dois lobos solitários que não acreditam na mesma ideologia de arte que a sociedade impõe. Enquanto os demais arquitetos constroem quimeras ilógicas, ressuscitando e misturando estilos sem o menor motivo racional, poluindo cada construção com decorações que prejudicam o melhor uso do espaço, nesse cenário Cameron e Roak são chamados de arrogantes, excêntricos, até mesmo de sem talentos e medíocres. Mas eles não se vendem: para eles cada edifício possui uma “alma”, uma razão de ser, um sentido lógico que exige determinada forma, determinados materiais e certos acessórios e decorações específicos. Não se trata de subir quatro paredes, mas de realizar algo coerente consigo mesmo. Cameron já enfrentou essa batalha e sente que perdeu, sua única esperança é que seu esforço sirva de motivação para que alguém no futuro continue sua luta, e esse alguém há de ser Roark.

Howard desce numa espiral de fracassos cada vez mais desesperadores. Seus altos ideais não lhe permitem concessões. Ele não tem tempo para sociais cuja única finalidade é conseguir contatos paparicando a alta sociedade. Quando recebe alguma proposta, seus rascunhos são deturpados pelos empregadores para “agradar mais aos clientes”, levando sempre a abandonar os projetos. Em nenhum momento Roark parece arrogante ao leitor (embora seja essa a visão dos demais personagens) por não aceitar negociar nem mesmo a parte decorativa de suas construções. Fica claro desde o começo o que ele representa: o Homem integro, o gênio muito além do seu tempo, por isso mesmo destinado a ser incompreendido em vida e sofrer, a história não é original, tantos exemplos como Sócrates, Jesus e Nietzsche inspiram o arquétipo.

Ayn Rand é uma refugiada da União Soviética naturalizada norte-americana. Contrária à qualquer ideologia que vise o bem-estar da grande massa, sua filosofia é a exaltação do Homem enquanto indivíduo, e sua obra engaja essa missão. A grande massa é o que define o nível mediano satisfatório de tudo, seja da cultura, da arte, do modelo de vida, de qualquer coisa. Mas para o indivíduo que deseja se afirmar, crescer, realizar algo de bom, o nível popular se mostra medíocre e insatisfatório; seu ato de se elevar acima das massas é visto como rebeldia e corrupção da ordem e do bem-estar social. O conflito entre indivíduo e massa é a luta entre o avanço e a decadência, a razão e a irracionalidade, a liberdade e o aprisionamento, a riqueza humana e a mediocridade moral, o bem e o mal.

Assim Rand descontrói alguns conceitos cujos significados nos foi dado pelas ideologias de bem-estar social. Altruísmo é autonegação, sacrifício sem valor pela massa ignorante; egoísmo não é fazer algo para si em detrimento dos outros, mas característica da pessoa integra, que não aceita ter suas obras deturpadas e seu ser corrompido por pessoas que apenas acham que sabem o que é o melhor para todos mas não são capazes de fazer nada de bom para ninguém, é autoafirmação, única possibilidade de avanço humano real.

Tenho para mim que toda arte deve transmitir alguma mensagem, mas num equilíbrio entre apreciação estética e trabalho intelectual. A Nascente muitas vezes se mostra filosofia de mais e arte de menos. Os personagens são mais ideias do que pessoas. Nessa exigência de que representem determinados ideais e pontos de vista, os personagens carecem de profundidade psicológica, são os mesmos do começo ao fim da obra. Há menos trabalho do narrador em desenvolver os personagens do que do leitor para descobrir o que cada um representa, e nesse trabalho o leitor pode se surpreender enquanto ainda não entendeu os conceitos filosóficos de Rand mas, quando consegue, os personagens se tornam rasos. Mesmo Dominique Francon, uma das mais interessantes da história, fica parecendo uma cópia malfeita da Nastassia Filipovna do romance O Idiota escrito por Dostoievski, por estar numa obra que limita seu desenvolvimento interno.

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comentários

Nota
3.5 de 5
No Geral

Embora a leitura seja tranquila, quando entendi a mensagem por trás da obra não consegui evitar de sentir certo incomodo quando notava que o enredo era deixado de lado para que algum personagem fizesse um discurso (algumas vezes com verborragia forçada) sobre o bem-popular ou sobre o egoísmo. Como esses elementos (carência de profundidade psicológica e teses filosóficas tomando o lugar do enredo) fazem parte da proposta da autora, não chegam a ser pontos negativos, mas não acho que deveria ignorá-los numa crítica. A obra intenta transmitir uma mensagem filosófica e realiza sua proposta com louvor, apresenta seus argumentos, contra-argumento e refutações dentro de uma história de leitura fácil e, no geral, agradável.

3.5

Regular
3.5 de 5
Marcadores A Nascente, Ayn Rand
William Multini

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