John Wick: Um Novo Dia Para Matar (2017) – O Cinema de Ação Como a Mais Violenta das Artes
12/02/2017
Eduardo Kacic (58 artigos)
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John Wick: Um Novo Dia Para Matar (2017) – O Cinema de Ação Como a Mais Violenta das Artes

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Crítica: John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2)

Quando lançado em 2014, uma pequena gema da ação capturou imediatamente minha atenção e também a de vários fãs do gênero. O filme era De Volta ao Jogo – em mais uma lambança dos distribuidores brasileiros, que optaram por não utilizar o título original da produção, John Wick, também o nome do protagonista do filme – uma bem orquestrada mistura da mais pura ação, com uma interessante estética visual, coisa que não é habitual dentro do gênero. Entretanto, o grande destaque da produção era seu protagonista, um mais que mortífero assassino de aluguel aposentado que acaba voltando à vida de matador para vingar-se da morte de… bem… de seu cachorro. E também do roubo de seu carro. Pode parecer absurdo, mas a simples e direta narrativa de De Volta ao Jogo foi tão bem trabalhada, e seu personagem central tão bem explorado, que tudo no filme, desde os mais absurdos detalhes, encontram sua razão de ser.

O grande diferencial do contexto deste letal protagonista, tem nome: Keanu Reeves. Com uma performance fisicamente irrepreensível, trabalhada com extremo cuidado pelo então diretor estreante Chad Stahelski, experiente dublê e coreógrafo, que trabalhou com o próprio Reeves em diversas produções do astro ao longo de sua carreira, Reeves terminou por criar, inadvertidamente, um novo ícone da ação. E agora, três anos depois do sucesso inesperado de público e boa parte da crítica do filme original, Stahelski e Reeves retornam aos postos neste absolutamente impecável John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2, EUA, 2017), filme que não só supera seu antecessor, como ainda derrama uma inesperada e muito bem-vinda nova ótica sobre o gênero ação no cinema. Para resumir a ideia: Se o gênero ação de repente fosse realmente visto como uma vertente artística, John Wick: Um Novo Dia Para Matar seria o representante oficial da citada vertente.

O resultado alcançado pelo talento estético e operacional de Stahelski, aliado à dedicação sem precedentes de Reeves em seu trabalho de perícia técnica e física nas inacreditáveis sequências de ação da produção, e do roteiro incrivelmente esperto e refinado do improvável roteirista Derek Kolstad (de produções apenas medianas do gênero no início da década, até chegar ao filme de 2014), é nada menos do que brilhante, expandindo de maneira perfeita o universo criado no filme anterior, e inserindo novos elementos que transformam o filme em uma divertida montanha-russa repleta de muito sangue e dos famosos headshots: Os tiros na cabeça.

Nesta sequência, o matador John Wick (Reeves) continua sua jornada de implacável vingança contra os responsáveis por sua volta ao mundo do crime. E quando – depois de muito sangue derramado e vítimas deixadas pelo caminho – Wick parece que finalmente poderá desfrutar de um pouco de paz, o matador recebe a inesperada (e indesejada) visita de Santino (o italiano Riccardo Scamarcio, de Pegando Fogo), um outro matador que reaparece para cobrar uma dívida que havia sido feita por Wick, em troca de um favor do próprio Santino. À princípio, Wick recusa-se a retribuir o favor e por consequência quitar a dívida, entretanto, as circunstâncias causadas por tal recusa acaba por forçá-lo a mergulhar ainda mais no perigoso submundo do crime organizado.

Submundo este, que é mais uma vez retratado de maneira genial pelo roteiro de Kolstad, que aborda o meio assassino em que vivem Wick e companhia como uma espécie de sociedade secreta. Uma espécie de Hogwarts do mal, onde ou “trouxas” são as infelizes vítimas dos predadores que habitam este mundo à parte. É inclusive neste submundo criminoso que o filme de Stahelski melhor encontra seu verdadeiro tom, utilizando um humor sutil mas incrivelmente inteligente, onde destacam-se alguns personagens que marcam presença de maneira pontual, porém inesquecível, como Cassian (interpretado pelo mal-encarado Common, da série Hell On Wheels e Os Reis da Rua, outro bom filme da carreira de Reeves), um outro assassino de aluguel que rivaliza com Wick; o manda-chuva Winston (Ian McShane, de Somos Marshall), que comanda toda a operação criminosa retratada no filme; além do ótimo Lance Reddick (da série Fringe), que interpreta o gerente do hotel onde hospedam-se os mais perigosos assassinos do mundo. Wick incluído.

Quem também dá as caras na produção é o eterno Morpheus Laurence Fishburne, que aqui reencontra Reeves, seu companheiro de Matrix. Vale ressaltar também toda a brilhante e hilariante sequência em que Wick prepara-se para entrar de vez na caçada, adquirindo armas dos mais diversos calibres como quem pede o jantar em um restaurante chique, e onde destaca-se o cuidado de Stahelski e Kolstad com o texto e requinte visual da produção. Stahelski não descuida da arrojada, e em alguns momentos estonteante estética do filme, num design de produção que mistura elementos clássicos com uma arrojada e moderna roupagem de ação inquietante e urbana, à cargo de Kevin Kavanaugh (do também brilhante O Abutre, 2014). Uma das sequências finais, que acontece em um labirinto de espelhos, não só é incrivelmente bela e eficaz, como também homenageia o eterno mestre Bruce Lee e seu Operação Dragão. Realmente não é pouco.

Entretanto, é onde os fãs mais esperavam, nas cenas de ação, que John Wick: Um Novo Dia Para Matar realmente mostra a que veio. A produção é um verdadeiro showcase de como a ação, quando tratada da maneira correta, pode ser tão inacreditável quanto espetacular. A mão firme de Stahelski, aliada à fotografia de Dan Lautsen (Terror em Silent Hill, 2006) e à edição frenética e impecável de Evan Schiff (do recente Michelle e Obama), alcança resultados fenomenais, dando à produção um ritmo acelerado e completamente recheado de muita, MUITA ação violentamente explícita. A contagem de cadáveres chega às centenas, e são tantos disparos na cabeça dos pobres adversários da máquina de matar John Wick, que em dado momento o espectador pensa até em se abaixar na sala de cinema, com medo de tomar um tiro ele próprio.

E é dentro deste cenário de ação incrível e ininterrupta, que mais do que resplandece a figura de Keanu Reeves. O que Reeves faz em John Wick: Um Novo Dia Para Matar, do alto de seus inacreditáveis 52 anos de idade, é elevar o nível da ação do cinema americano à outro nível. Um nível nunca antes visto. O grau de profissionalismo de Reeves, tanto em sua preparação pré-produção quanto em cena frente às câmeras, não só é louvável como é inacreditavelmente inédito. A perícia física de Reeves nas cenas de combate, e sua perícia técnica no manejo de armas de fogo ao longo da produção, são incomparáveis a de qualquer outra coisa que eu tenha visto, à nível de cinema de ação. O trabalho de Reeves aqui, é nada mais nada menos do que um encantador testamento ao gênero, onde o ator se declara e se dedica completamente, para alegria dos muitos fãs desta sofrida vertente do cinemão hollywoodiano. Pode-se dizer que Reeves, neste John Wick: Um Novo Dia Para Matar, fez pelo cinema de ação, o que Gene Kelly e Fred Astaire fizeram pelos musicais através da dança: Transformar algo bruto e simples, na mais pura e polida arte.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar é o melhor filme de ação americano em décadas, e um exemplar a ser acolhido também mundialmente como uma obra testificadora do poder da ação bem executada. Um filme violentíssimo, mas que carrega consigo uma estranha e visceral beleza, apoiada em uma performance para toda a vida de seu destemido, talentoso e carismático protagonista. Parabéns Mr. Reeves! Você eu aplaudo de pé.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar estreia nos cinemas brasileiros no dia 16 de Fevereiro.

 

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Nota
5 de 5
No Geral

John Wick: Um Novo Dia Para Matar é o melhor filme de ação americano em décadas, e um exemplar a ser acolhido também mundialmente como uma obra testificadora do poder da ação bem executada.

5

Excelente
5 de 5
Eduardo Kacic

Eduardo Kacic

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colunista do Mundo Blá, e agora é colaborador Humanoides desde criancinha. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao M1TO.

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