Capitão Fantástico (2016) – Arrebatador do começo ao fim.
03/01/2017
Rafael Mendonça (15 artigos)
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Capitão Fantástico (2016) – Arrebatador do começo ao fim.

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Uma viagem sensível e inteligente que revigora o Cinema estadunidense.

Diante de uma proposta conhecida, ‘’Capitão Fantástico’’ nasce.

À primeira vista, parece vir de uma junção de tentativas melancólicas que o Cinema as vezes tenta criar: personagens reféns ou diferentes do mundo em que vivem que os tentam moldar, com histórias de libertinagens utópicas. Tal façanha, por motivos primeiramente sociais do que cinematográficos, é atrativa. Difícil dizer algum filme que usou dos ‘possíveis sonhos’ do telespectador e não o tocou a alma, o chamando, pelo menos durante a projeção, para uma aventura selvagem ou que saia do minimalismo da existência.

‘’Capitão Fantástico’’ se adentra nesses aspectos, mas não freando as expectativas: o filme cresce e se mantém como um dos longas de ‘’road-movie’’ mais sólidos e artístico dos últimos anos.

Em seu enredo é contada a história de um pai (Viggo Mortensen), que isola sua família, composta por seis filhos, da sociedade tradicional, na tentativa de torná-los adultos extraordinários. Mas diante de uma tragédia familiar, o ambiente precisa ser deixado e eles seguem à caminho da civilização que tanto criticam.

 

A primeira cena.

A história se inicia com um plano aberto de uma floresta densa e esverdeada.

A câmera nos apresenta ao universo do filme diante de uma determinada situação: a família de Ben (Viggo Mortensen) está caçando. Na cena, a caça possui além de seu significado determinante, que é conseguir comida, a adição de ser um ritual de passagem da infância à fase adulta para a família, sendo protagonizada por um dos seis: Bo (George MacKay).

Com suas camuflagens rústicas e suas ações estritamente primitivas, somos apresentados aos personagens.

Mas algo que ‘’Capitão Fantástico’’ faz com excelência é: ele não permite somente um ponto de vista, e sim equilibra diferentes perspectivas por mais ambíguas que possam ser.

Com a cena descrita, há de se pensar que o animalesco faz parte do dia a dia da parentela, mas não, em frames adiantes somos levados ao ‘habitat’ da dita cuja, e com uma montagem clara e objetiva, o longa faz o que o Cinema foi criado para fazer: nos contar tudo sem falar nada, e os possíveis questionamentos da sobrevivência que parecia impossível são respondidos, aprofundando ainda mais as personagens com a escolha de uma cenografia que nos apresenta objetos que descrevem situações e personalidades muito mais do que diálogos extensamente escritos e cansativos.

Oito minutos de filme.

O mundo exuberante e suas divergências.

Em torno de uma fogueira a família toda lê, e o diretor já nos joga a primeira ‘quebra de paradigma’: personagens cultos que debatem filosofia, sociologia e discutem física quântica no meio do mato enquanto tocam violão.

A fotografia do filme nos ajuda a se alocar no que ocorre. Somos expostos a grandes planos de alto contraste, com uma luz que chega a ser quase estourada, chamando-nos atenção a imensidão rica que envolve tudo.

A montagem se casa com a trilha sonora, que transforma os sons diegéticos em não diégeticos fazendo com que fique mais fluída.

Tudo é carismático: roupas, trejeitos, atuações que mostram um extremo controle e confiança entre atores. Os artifícios do Cinema são em sua totalidade complementares à obra em geral.

Os diálogos são criativos e deveras engraçados por não parecer se encaixar com quem os diz, e não há um que precise ser urgentemente tirado, como se fossem tinta desperdiçada do roteiro.

Ao fim do primeiro ato é posto em prova o mundo em que vivem, e o filme a partir daí muda de localidade, numa viagem de situações inusitadas e diálogos ainda mais evoluídos, dos quais, repito, sempre servem para mostrar algo a mais das personagens e suas personalidades. O Cinema sendo muito bem executado.

As divergências de realidade vão desde o mais óbvio até questões mais peculiares, cabendo ao espectador, no segundo caso, as fisgarem no momento certo. Sendo assim, ‘’Capitão Fantástico’’ se depara sendo recheado de recursos que entusiasma qualquer tipo de público, dos mais devotos ao mais simplistas.

O caminho percorrido e as lições aprendidas.

É interessante dizer que, de certa forma, o filme dialoga com a situação atual do modo de vida das pessoas: egocêntrica e que comumente não aceitam diferentes realidades. Há de se ir mais fundo: crítica ao sistema, e aos diferentes poderes soberanos que comandam os ‘’bons costumes’’ (questionados no filme) da sociedade, como citado, podendo ser da escolha de cada espectador ingerir tais coisas, pois a arte permite diferentes sentimentos e interpretações de um único segundo. E diante disso, o longa não escolhe o bem ou o mal, apenas dita forças e opiniões contrárias, onde no fundo, ambas estão certas (do seu ponto de partida do que é certo).

 

Capitão Fantástico (2016)

Direção: Matt Ross.

Roteiro: Matt Ross.

Montagem: Joseph Krings.

Produção: Jamie Patricof, Lynette Howel, Samantha Housman.

Fotografia: Stéphane Fontaine.

Trilha Sonora: Alex Somers.

Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Annalise Basso, Samantha Isler, Shree Crooks, Nicholas Hamilton, Charlie Shortwell, Kathryn Hahn, Frank Langela, Steve Zanh, Erin Moriarty, Missi Pyle, Ann Dowd, Louis Hobson, Trin Miller, Hanna Horton.

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