Tudo O Que Eu Amo Morre (2017) – A Sociopatia do Desejo
25/06/2017
Eduardo Kacic (60 artigos)
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Tudo O Que Eu Amo Morre (2017) – A Sociopatia do Desejo

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Há alguns meses aqui mesmo no Humanoides, esta verdadeira vitrine para o intrépido cinema independente nacional, falei um pouco sobre o trabalho do talentoso e prolífico cineasta pernambucano Lula Magalhães, em minha crítica de seu curta-metragem Mandala Night Club, rodado em 2014.

Filmado em um verdadeiro esquema de guerrilha, Lula rodou o curta sem incentivos públicos ou privados, bancando tudo do próprio bolso, numa expressão de como opera o empanelado sistema de produção e distribuição do cinema nacional atual, que continua a produzir e exibir lixos em profusão, como as inúmeras comédias patrocinadas pela toda poderosa Globo e cia, e a preterir a energia do cinema “de garagem” brasileiro e seus criativos e inventivos expoentes, um deles o próprio Lula.

Hoje, venho falar para vocês sobre esta nova incursão cinematográfica de Lula Magalhães, com seu curta Tudo O Que Eu Amo Morre (Brasil, 2017), produção com cara de cinema marginal, mas que utiliza esta impressão para traçar um breve, nervoso e estiloso estudo de personagem, no caso o da enigmática “B” (a belíssima Joyce Gonçalves, num papel extremamente corajoso), uma mulher que após adquirir um manequim em um brechó, opera no boneco um doentio jogo que envolve o desejo, a luxúria, e uma queda para a sociopatia.


Rodado em apenas um dia, Tudo O Que Eu Amo Morre é um trabalho fortíssimo de Lula Magalhães. A produção é explícita e crua, assim como a performance colossal e valente da tatuada Joyce Gonçalves, que encara todas as subversivas vontades de sua abrupta personagem. Segundo as palavras do próprio diretor, seu filme “evidencia que os conflitos muitas vezes não se dão na relação com o outro, e que na verdade, estes conflitos são criados por nós mesmos”, o que aqui resulta num exercício de violenta catarse sexual.

Em tempos de “empoderamento feminino” à flor da pele, não vou negar que o filme de Lula causará certo alvoroço junto à parcela feminina do público. Eu, como entusiasta do cinema “sem mimimi” – por falta de uma definição melhor – adorei a visão brutal do diretor em cima de um relacionamento que nada tem de usual, e que carrega consigo uma energia dark e elétrica, fortalecida por uma protagonista por vezes maior do que o próprio filme.

O filme de Lula Magalhães não é um romance, não é uma comédia romântica, ou muito menos um conto sobre o amor e suas asas libertárias. Tudo O Que Eu Amo Morre expressa tudo aquilo que mesmo esta própria parcela feminina supostamente “empoderada” luta para esconder: O desejo de possuir completamente algo ou alguém, para depois descartá-lo impiedosamente. É da natureza humana objetificar aquilo que o apetece carnalmente. Doa a quem doer.

Tudo O Que Eu Amo Morre está inscrito em diversos festivais de cinema nacional.

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Nota
4 de 5
No Geral

Tudo O Que Eu Amo Morre expressa tudo aquilo que mesmo esta própria parcela feminina supostamente "empoderada" luta para esconder: O desejo de possuir completamente algo ou alguém, para depois descartá-lo impiedosamente.

4

Bom
4 de 5
Eduardo Kacic

Eduardo Kacic

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colunista do Mundo Blá, e agora é colaborador Humanoides desde criancinha. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao M1TO.

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