Pieles (2017) – Os Deformados Também Terão Sua Chance
12/04/2017
Eduardo Kacic (60 artigos)
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Pieles (2017) – Os Deformados Também Terão Sua Chance

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Crítica: Pieles (Skins)

“O mundo é horrível, o ser humano é horrível… Mas não podemos fugir disto. Porque nós somos o horror.”

Esta sentença, pronunciada por um dos personagens deste bizarro Pieles (Skins, Espanha, 2017), dá a tônica desta incomum produção, que na cola de produções inusitadas como os recentes The Greasy Strangler e Um Cadáver Para Sobreviver, ambas lançadas no ano passado, também procura conquistar seu lugar ao sol, utilizando a doutrina do absurdo para falar aqui de rejeição, solidão e auto-aceitação, todas consequências das deformações do corpo e do espírito.

Nova produção do sempre polêmico diretor, roteirista e produtor espanhol Álex de la Iglesia, responsável por projetos tão díspares como o comportado suspense Enigmas de um Crime (The Oxford Murders, 2008), a amalucada comédia dramática Balada do Amor e do ódio (Balada Triste de Trompeta, 2010) e o divertido As Bruxas de Zugarramurdi (Las Brujas de Zugarramurdi, 2013), Pieles é escrito e dirigido pelo jovem ator espanhol, e aqui diretor estreante, Eduardo Casanova, que mostra uma energia interessante e inventiva, além de um resquício do estilo de um Pedro Almodóvar em início de carreira.

Casanova entretanto, extrapola de tal maneira sua própria visão cinematográfica deturpadamente original, que qualquer semelhança com o cinema de Almodóvar não se sustenta tanto assim. Em Pieles, Casanova fragmenta sua frágil narrativa em um estranho mosaico, formado por alguns dos personagens mais inacreditáveis que eu tive a oportunidade de conferir no cinema. Todos deformados fisicamente.

Laura (a sensacional Macarena Gómez, do ótimo thriller Ninho de Musaranhos, cuja crítica você também pode conferir aqui no Humanoides), não tem os olhos, e utiliza dois diamantes colados no lugar onde seus olhos estariam. Ana (Candela Peña, de Tudo Sobre Minha Mãe), tem metade do rosto completamente desfigurado, e está em um turbulento relacionamento com Guille (Jon Kortajarena, de Direito de Amar), que teve seu rosto totalmente queimado em um acidente. A anã Vanesa (Ana María Ayala), luta para ser vista como uma mulher de verdade, e não apenas como o mascote de um programa infantil, o qual representa usando uma roupa de urso. Paralelamente, o adolescente Cristian (Eloi Costa), acredita que suas pernas não lhe pertencem, e coloca em prática um plano para perdê-las. Plano que acaba respingando na infeliz Samantha (Ana Polvorosa), uma jovem que tem (PASMEM!) um ânus no lugar da boca. E vice-versa!

Como já deu para perceber, Casanova não poupa o espectador de seu surrealismo escatológico repleto de referências sexuais, mas também composto de algumas bem pontuadas observações sobre a complicada mecânica familiar e sentimental dos problemáticos protagonistas de sua trama. Trama que apesar de em alguns momentos soar excessivamente dispersa, principalmente devido a seu tom desenfreadamente extravagante, consegue amarrar de maneira esperta alguns elementos da narrativa, cruzando os destinos de seus personagens, mesmo que por diversas vezes, de maneira bem sutil.

Ainda que sutil seja um adjetivo que pouco combina com o estilo espalhafatoso da produção, que conta com excelentes direção de arte e desenho de produção, sempre transbordando diferentes tons de roxo e rosa (numa clara maneira do diretor Casanova expor sua homossexualidade), à cargo de Idoia Esteban (de Extraterrestre e Os ABCs da Morte). A produção também traz um incrível trabalho de maquiagem, de uma equipe formada apenas por profissionais espanhóis, em uma vertente que geralmente é dominada pelos norte-americanos.

De tom singular e por diversas vezes grotesco, Pieles apresenta ao mundo um promissor e original talento na pele do jovem Eduardo Casanova, que utiliza-se das deformidades humanas, sejam elas físicas ou não, para construir uma obra por vezes apelativa e de difícil digestão, mas que por baixo de tantas camadas de insólitos acontecimentos e personagens, traz uma relevante, honesta e por que não, uma delicada e otimista fábula sobre a superação dos limites impostos por uma sociedade que cada vez mais, valoriza a superficialidade estética e se esquece da real beleza.

É como outra personagem da produção profere em um dos momentos finais do filme: “A pele muda. Sofre cirurgias, envelhece ou se transforma. A aparência física não é nada. Absolutamente nada.”

Pieles encontra-se disponível no catálogo da Netflix.

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comentários

Nota
3.5 de 5
No Geral

De tom singular e por diversas vezes grotesco, Pieles apresenta ao mundo um promissor e original talento na pele do jovem Eduardo Casanova.

3.5

Regular
3.5 de 5
Eduardo Kacic

Eduardo Kacic

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colunista do Mundo Blá, e agora é colaborador Humanoides desde criancinha. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao M1TO.

Comentários

  1. Lê
    abril 12, 23:16
    Estive procurando algum comentário sobre este filme que assisti hoje no netflix e por acaso caí aqui. E que alívio que me deu! Eu gostei bastante do filme, achei muito similar à série Black Mirror, que gosto demais. Gostei dos exageros, da maquiagem, das cores, do mosaico, como você disse. E fiquei pensando: afinal de contas, as pessoas "normais" eram também bem deformadas na personalidade como: a mãe que tratava o filho com aquele desprezo, o pai do menino que tinha aquele "desejo", o cara que se apaixonava loucamente por pessoas deformadas e por aí vai. Enfim, voltarei mais vezes.
    • Eduardo Kacic
      Eduardo Kacic Autor abril 12, 23:35
      Verdade Leila... É um filme que disfarça muito bem sua profundidade. É preciso um olhar mais atento para capturar todas estas nuances. Esta observação que fez sobre as pessoas "normais" que são tão defeituosas quanto os protagonistas, foi muito bem pontuada. Agradeço pela visita, pelos comments e pelos elogios. Volte sempre! Beijão!
  2. Andrea
    Andrea abril 25, 22:21
    Absolutamente divino! Verei mais vezes! Que revolucionário! Que músicas! Final feliz, Aleluia!! Se a arte imita a vida, neste caso a vida deveria imitar a arte!

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