La La Land (2016): Um vislumbre de esperança musical
02/02/2017
Rafael Mendonça (15 artigos)
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La La Land (2016): Um vislumbre de esperança musical

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Vamos tirar o elefante da sala: eu odeio musicais, porém, admito ser um dos gêneros mais importantes da história do Cinema. Ajudou imensamente a sétima arte ressurgir artisticamente e economicamente durante a depressão dos anos de 1920 dos Estados Unidos, levando simplesmente pessoas às salas de Cinema e movimentando a moeda, devido as audácias e genialidade de Busby Berkeley, que filmava cenas que não consigo com exatidão descrever aqui (e isso não é brincadeira).O gênero foi crescendo e se tornando um dos mais almejados pelo público, revelando grandes astros, e consequentemente, grandes filmes: Fred Astaire com ”Picolino” em 1935, passando o bastão para Genne Kelly nos anos 40 e 50, com ”Sinfonia em Paris”, ”Cantando na Chuva” entre outros. A história dessa parte da história (do Cinema), é longa e muito importante, deixo esta responsabilidade para um outro artigo. Mas um fato é que o gênero musical vem aos poucos morrendo, com obras que aparecem e chamam à atenção de décadas em décadas como ”Os Miseráveis” por exemplo, de 2012.


Eis que em 2016 (começo de 2017 no Brasil, como sempre depois), surge um filme que deixa em euforia os amantes de musicais, e esperançosos até quem não os admirava: La La Land.

La La Land é de Damien Chazelle. Este homem é um novato na terra de Hollywood, e filmou um dos melhores filmes de 2014: ”Wiphlash”, que custou pífios 3,3 milhões de dólares (como ele conseguiu pagar J. K. Simmons?) e arrecadou, em seu longa de estréia, três óscares: melhor ator coadjuvante (J. K. Simmons), melhor montagem (Tom Cross) e melhor mixagem de som.

Mas não foi fácil assim: Damien Chazelle tem 32 anos, e nunca foi bem visto em Hollywood. Batia de porta em porta, querendo filmar alguma coisa, mas não conseguia ser bem recebido. Até que fez um curta, e esse curta virou um filme que vangloria o jazz e mostra seu apreço pela música. Foi uma pessoa jovem tentando se provar.


Mas porque estou te enrolando com isso? Porque La La Land é muitas coisas, e uma delas é ser peculiarmente um filme autobiográfico de um amante do Cinema e da música.
”La La Land” é um ode à Los Angeles, uma carta de amor ao jazz e um vislumbre de esperança de um possível ressurgimento do gênero.

Escolhendo ter requintes fantasiosos para se guiar, ”La La Land” junta histórias de dois personagens distintos para criar uma: Mia (Emma Stone) é uma garçonete que trabalha numa lanchonete de estúdios de Hollywood e que sonha em ser atriz, e Sebastian (Ryan Gosling) um pianista que é saudosista em relação ao jazz e sonha em abrir um bar temático sobre.

 

Na primeira cena do filme somos guiados pela câmera num engarrafamento, e que pela primeira vez nossos personagens têm um contato, do qual não é positivo. Mas o fato é que desde o primeiro minuto Chazelle nos mostra para o que veio: fazer um musical esteticamente colossal. Numa cena sem cortes (aparentes), num dos lugares mais movimentados dos Estados Unidos (como conseguiu fechá-la para filmar isto é um mistério). Então o filme se movimenta com uma música que remete não só a sua vida como a de todos nos que assistimos, música da qual evoca sonhos, perseguições, tentativas, decepções, numa explosão de cores, de personagens limpos, bem arrumados, e tudo sistematicamente pensado.

E La La Land é essa bomba de cores e referências, que para alguns pode soar exagerada, pretensiosa, e para outros bela, gloriosa de postos de grandes filmes, obra suprema. Devido à isso, o filme vem separando arduamente (como o gênero faz de melhor) essas duas posições.

Temos então uma fotografia de cores vibrantes, alto contraste, ora luz ofuscada ora iluminação preenchida, de personagens bem vestidos, e uma produção beirando um Wes Anderson.

E mais: o filme usa de artifícios além, como a escolha da metalinguagem (atores de Hollywood tentando ser atores de Hollywood) ao mesmo tempo que mescla ambientações diferentes pois, ao mudar de localidade, apesar do filme se passar nos tempos atuais, esse se desloca para os anos 50 por exemplo (era dos musicais, que coincidência) ao fazer personagens e situações se passarem dentro dos próprios estúdios de Los Angeles, mostrando também monumentos da cidade como o famoso planetário.

No quarto de Mia temos um papel de Ginger Rogers, à sua frente do local de trabalho temos a sacada de Casablanca, e toda a nostalgia à filmes antigos e referências à dezenas de musicais da era antiga do Cinema.

Sobre o roteiro, vejo problemas, é simplista e só serve para seguir a história adiante, fazendo o filme servir de palco e não de um enredo propriamente dito. As atuações são boas, principalmente de Emma Stone, que consegue facilmente substituir emoções numa cena, de novo, sem cortes (Chazelle adora isto), e aprendeu sapateado e fez aulas de canto para o longa. Já Gosling fica um pouco abaixo e se mantém numa atuação ‘defensiva’, aprendeu a tocar piano para o filme, e canta ok, obviamente, ambos não chegam aos pés de estrelas de décadas anteriores, mas é inegável que possuem uma química muito forte e uma relação em tela que resulta em momentos expressivamente naturais.

As músicas são bem escritas, para alguns chiclete, para outros não.

Mas resumindo (eu tentei), o filme é este grande espetáculo, e é difícil descrevê-lo, basta ver para entender. Numa execução magistral do Cinema, ”La La Land” pousa com alguns problemas: alias, remeter abusivamente à filmes anteriores faz dele um admirador ou um filme que tenta subir em qualidade pelo peso de outros? Apesar de eu estar no meio de ambas opiniões, é fato que La La Land é de uma qualidade inquestionável esteticamente, mas não saindo da zona de conforto, adotando encenações carismáticas e consequentemente seguras, falhando em propor um conflito entre os personagens do qual no momento do qual esta sendo executado parece forçado demais.

Resta saber se ”La La Land” será lembrado além de seu tempo, ou será mais um filme ”papa Oscar” do qual ninguém mais se lembrará depois. Mas uma coisa é fato: Chazelle esta adentrando em listas de realizadores magistrais, você gostando do filme ou não.

Simpático, seguro, e fofo.

 

 
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