Ninho de Musaranhos (Musarañas, 2014) – Thriller Espanhol Impecável!
21/03/2016
Eduardo Kacic (60 artigos)
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Ninho de Musaranhos (Musarañas, 2014) – Thriller Espanhol Impecável!

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Crítica: NINHO DE MUSARANHOS (MUSARAÑAS)

Ah, os thrillers… Normalmente a arte de se fazer um bom thriller cabe aos norte-americanos e seu cinemão. David Fincher e seu Seven: Os Sete Crimes Capitais, O Suspeito da Rua Arlington (Mark Pellington, 1999) apenas para citar alguns. Os sul-coreanos também dominam essa arte, muitas vezes superando o cinema americano. Chan-wook Park e sua Trilogia da Vingança falam por si. Os franceses também são chegados em um bom suspense, e em suas obras costumam carregar na pungência à flor da pele, pegando pesado na violência, como em Mártires (Pascal Laugier, 2008), Alta Tensão (Alexandre Aja, 2013), etc…

Na Espanha entretanto, também cultiva-se a arte da criação de um bom thriller, mas curiosamente, o cinema do país sempre mantém a classe, contando histórias com pouco sangue e muito estilo, reminiscentes dos trabalhos do genial Guillermo Del Toro (apesar deste ser mexicano de nascença) e Alejandro Amenábar (Os Outros, 2001).

Este sensacional Ninho de Musaranhos (Musarañas, Espanha, 2014) é mais um ótimo exemplar do gênero, que mescla com plenitude a classe dos suspenses espanhóis com a audácia e tensão explícita dos thrillers oriundos dos países citados acima. Uma verdadeira montanha-russa de emoções levadas ao limite, protagonizada de maneira soberba pela pequenina (apenas na estatura) Macarena Gómez (As Bruxas de Zugarramurdi, Dagon).

Macarena interpreta Montse, uma solteirona religiosa que vive na Espanha pós-guerra dos anos 50. Costureira de mão cheia, Montse é também responsável pela criação de sua irmã mais nova (Nadia de Santiago), a quem cria com mão de ferro desde o desaparecimento de seu pai na guerra e a anterior morte de sua mãe, durante o parto da irmã mais nova. Católica fervorosa, Montse no entanto sofre de agorafobia, ou “síndrome do pânico”, o que a limita aos confins de seu apartamento, 24 horas por dia. As coisas começam a se transformar para Montse quando Carlos (Hugo Silva, também de As Bruxas de Zugarramurdi), o vizinho de cima, bate à sua porta, solicitando sua ajuda.
Agora, com a entrada em cena de Carlos na severa rotina de Montse e sua irmã, a convivência e os laços fraternais das duas será testada como nunca foi, ao mesmo tempo em que revelações do passado da família vêm à tona com força total.

Dirigido e escrito de maneira primorosa pelo estreante Juanfer Andrés, que dirige o filme em parceria com o também estreante Esteban Roel, e assina o roteiro ao lado de outra estreante em longas, Sofía Cuenca, Ninho de Musaranhos tem tudo para se tornar um novo pequeno clássico do gênero. De trama e pano de fundo extremamente bem construídos, o filme se desenvolve de maneira original e vibrante, mantendo o espectador em suspense constante. As revelações vão surgindo aos litros, ao mesmo tempo em que a produção pavimenta o caminho para uma conclusão estarrecedora, violenta e reveladora. Me atrevo a dizer que o filme traz um plot twist de fazer inveja ao M. Night Shyamalan do começo de carreira.

Com esta sólida base na condução de sua produção, Andrés e Roel deixam sua intérprete protagonista solta para brilhar. E acreditem: Ela brilha. Demais. Macarena Gómez entrega a que é, em minha opinião, provavelmente a melhor performance feminina de 2014, em uma atuação sofrida, odiosa e dolorida, com rompantes de assombro que balançam os nervos do espectador, que ora odeia, e ora se compadece da triste condição de sua personagem. Sua performance avassaladora corresponde em todos os aspectos ao tom progressivamente macabro da produção, que discute os laços de sangue e suas eternas implicações de maneira chocante e pungente, e que ainda deixa espaço para o ótimo Luis Tosar (Miami Vice, Segunda-Feira ao Sol) brilhar em um pequeno papel.

Absolutamente imperdível e obrigatório para os fãs de um bom thriller, que honra as raízes do suspense de classe estabelecidas por Alfred Hitchcock, Ninho de Musaranhos é uma aula de construção narrativa, e tensão de fazer a coluna ranger, coroada por uma atuação sobrenatural de sua pequena protagonista (mais uma vez, pequena apenas em sua estatura)…

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comentários

Nota
5 de 5
No Geral

Ninho de Musaranhos é uma aula de construção narrativa, e tensão de fazer a coluna ranger, coroada por uma atuação sobrenatural de sua pequena protagonista.

5

Excelente
5 de 5
Eduardo Kacic

Eduardo Kacic

Eduardo Kacic é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. Criador do extinto blog Gallo Movies, colaborou também com os blogs Formiga Elétrica e Filmes e Games. É colunista do Mundo Blá, e agora é colaborador Humanoides desde criancinha. É São-Paulino doente, marido apaixonado da Lígia Oliveira e pai do Pedro Ceni. Sim, o sobrenome é em homenagem ao M1TO.